O Eleito

domingo, novembro 13, 2005

Pegar Pelo Lado Errado Do Problema

Esta discussão entre «liberais» e adeptos do «estado social» tem qualquer coisa de estéril. Aliás, da argumentação de Karloos não decorre qualquer alteração de fundo a nível do Regime. Apesar de estimulante, esta conversa não nos levará a lado algum porque, de um lado e de outro, repetimos os mesmos argumentos há gerações, tal como é exemplifcado no texto que em baixo transcrevo:

O Jornal do Povo (um periódico cartista do Porto) de 17 de Maio de 1853

«Para se poder avaliar entre nós, as tendencias para os estudos sociais, para os melhoramentos publicos, para o desinvolvimento economico, basta avaliar uma expressão de que usa por ahi quasi toda a gente. Se o governo não faz nada! E com isto a priguiça pretende justificar-se, a indolencia talvez requeira um altar, e o desleixo a apotheose.
O governo póde ser menos util aos interesses nacionaes, sendo pouco escrupuloso na gerencia financeira, pode prejudicar o commercio pondo-lhe pêas e embaraços, pode arruinar muitas especulações lucrativas pelo arbitrio das suas concessões; porém quando se goza de uma completa liberdade de acção, e associação, quando por todos são conhecidas as regras que se devem seguir, que não se teme o poder absoluto, nem violencias de qualquer natureza, exigir que o governo representante mais vezes que as suas tendencias, é não só uma utopia visivel, mas também uma apostasia de principios!
Se vós estaes continuamente censurando o governo pelo pretendido abuso de poder, por transpor os limites das suas attribuições, por invadir a esphera onde imperam outros potentados, como pedis providencias extraordinarias para qualquer assumpto que devia estar ao alcance da vossa intelligencia? Fallamos com o Portuguez[1]. [...] Pois que, estadistas tam consumados, criticos tam severos, pedagogos tam eloquentes, pedem providencias ao governo sobre o augmento de salario dos operarios agricolas, e sobre a emigração dos trabalhadores para o caminho de ferro? Provaes então que as vossas aspirações são realmentebem pouca cousa, ides pedir conselho ao ministro para depois censurardes a medida? Ou pretendeis que os vossos adversarios tenham a sinceridade de acceitar a vossa simpleza?Pedis providencias que obstem ao augmento do preço do trabalho? Primeira tolice, ou primeiro absurdo. Não sabeis que o governo não modifica as leis da offerta e da procura? Como se hade decretar trabalho onde não ha nada a fazer, ou prohibir que se trabalhe onde ha muito que fazer? O governo deve ser o director, e o gerente dos industriaes agricultores ou manifactores? Pode governo rasoavelmente invadir a mais sancta, e a mais sagrada das propriedades, a propriedade do trabalho? Pedis indemnisacções para os usurarios, e prepotencias para os obreiros, eis aqui o que valem as vossas declamações. [...]
Pedis que o governo mande buscar galegos, que o trabalho é bom, e barato!! Se estivesseis sentados nas cathedrais ministeriaes, dois vapores, patrocinariam os interesses da propriedade! A lei da offerta, seria uma quimera, e o interesse dos operarios um padrão que deveria ser aferido pela vossa craveira! Talvez ignoraes que ha uma emigração constante de portuguezes para trabalhos agricolas da provincia da Andaluzia. – Se o soubesseis pedirieis de carto a prohibição da emigração, appresentando-nos uma nova reforma do edicto francez de 8 de Novembro de 1791?Não é assim que se tem em conta os interesses da propriedade. Não é com a tyrannia, nem com as providencias stultas, e requisições de pouco bom senso, que se anullam as leis economicas, ou se evitam as circuntancias especiaes em que se encontra collocado qualquer paiz. [...]
O trabalho é como o dinheiro, são capitaes que affluem, onde ha interesse, e onde podem ser empregados lucrativamente. É este o principio que determina as emigrações, e não ha outros motivos em que ella se justifique.»
Não sendo um texto brilhante, é, contudo, ilustrativo. Mudam-se as circunstâncias, mudam-se os protagonistas, mudam-se os tempos, mas é sempre a mesma velha cantiga. Talvez, quem sabe?, nenhum português seja, por impossibilidade genética, liberal. Podem brincar aos liberais, mas serão sempre eternos afilhados do estado. Em 150 anos o estado cresceu mais que o próprio país (o eterno déficit) e o pior é que nos cresceu por dentro, pela consciência adentro. Mas aí já é outro problema...
[1] Outro periódico...

8 Comments:

Blogger CGP said...

Estás de acordo então com a minha proposta?

7:52 da tarde  
Blogger David Afonso said...

No essencial acredito que a evolução a médio prazo vá para aí. Agora o que acho curioso é que as propostas dos aspirantes a reformistas do Regime peguem sempre em primeiro lugar na questão da segurança social. Parece que anda por aí uma espécie de ressentimento social mal resolvido. Quem está muito preocupado com ter «mais dinheirinho no bolso» deveria, em primeiro lugar, dirigir as suas atenções para a economia paralela e subterrânea, onde os partidos e o nosso futuro se ferram. Aí sim. Mas talvez o mal do regime sejam os sacanas do rendimento minimo e do subsídio de desemprego...

10:13 da tarde  
Blogger CGP said...

A questão não está no quê que faz pior ao regime mas sim naquilo que pode ser resolvido por decreto. Ninguém pode acabar com a economia informal por decreto, é um trabalho arduo de fiscalização e mentalização que levará anos, já no caso do subsidio de desemprego e outros....

11:16 da tarde  
Blogger David Afonso said...

Pode-se decretar a reforma do financiamento dos partidos, pode-se decretar a obrigatoriedade de todos os organismos públicos e empresas de capitais públicos procederem a abertura de concursos públicos em vez da adjudicação directa de projectos e obras, pode-se decretar uma fiscalização extraordinária aos colégios e universidades privadas que parecem conseguir transformar alunos mediocres em super-génios, pode-se decretar o fim do sigilo bancário, pode-se decretar...

2:20 da manhã  
Blogger CGP said...

Não se pode decretar o fim da economia informal.

9:58 da manhã  
Anonymous Anónimo said...

a questao de por onde se deve comecar a construir um pais (se pela parte social ou pela parte economica) sempre dividiu a esquerda e a direita ... na realidade e' essa a grande diferenca entre as duas ... no entanto acho no minimo simplorio as afirmacoes : "Parece que anda por aí uma espécie de ressentimento social mal resolvido. Quem está muito preocupado com ter «mais dinheirinho no bolso» deveria, em primeiro lugar, dirigir as suas atenções para a economia paralela e subterrânea, onde os partidos e o nosso futuro se ferram. Aí sim. Mas talvez o mal do regime sejam os sacanas do rendimento minimo e do subsídio de desemprego..."
as populacoes trabalham se forem motivadas para isso!!! nao e'a toa que os nossos emigrantes qd vao la para fora sao classificados como dos melhores !! o que precisam e'de bons chefes ... mas isso em portugal nao parece haver ...
...

2:14 da tarde  
Blogger David Afonso said...

Pois não. Mas pode-se tornar-lhe a vida muito mais complicada. Enquanto aceitarmos o actual estado das coisas não vale a pena discutirmos o regime. O problema do regime não está nele próprio mas nas margens, nos mecanismos corrosivos da informalidade alegremente praticada por todos: dos governantes aos governados, dos corruptos aos corrompidos, passando pelos meros figurantes. O que realmente nos interessa não se vê apesar de estar à frente dos olhos de toda a gente

2:19 da tarde  
Blogger Biranta said...

É mais fácil "decretar" o fim das economias paralelas do que o fim das subvenções sociais. O primeiro decreto é executável, o outro não... a menos que alguém imagine que se pode destruir uma boa percentagem da população dum país. O problema é que, nestas coisas "os que mais berram são os que mais conseguem" e os desgraçados nem capacidade têm para berrar. O que acontece é que o poder é controlado, em grande parte, por "interesses obscuros" que nunca consentirão na eliminação da economia paralela. Aliás, sempre que as pessoas se empenham muito a discutir questões acessórias, confesso que, fico com dúvidas...

5:31 da tarde  

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